Leia entrevista com Hermicésar, especialista em dengue

Quando você foi secretário de saúde em Várzea Alegre a dengue foi debelada. Não havia dengue aqui. Você já tinha experiência na área? Ou esse resultado foi por coincidência?

Eu tinha ampla experiência em controle de dengue no município de Várzea Alegre. Sempre fui ligado ao pessoal das endemias. Esse tema sempre despertou em mim profunda vocação.

Fiz cursos de vigilância sanitária e gerenciamento de endemias. A notícia da minha nomeação foi imensamente bem recebida pelo pessoal da Micro, em virtude do conhecimento e experiência que eu já tinha no trato inclusive com o calazar. Tudo isso me trouxe muita facilidade para enfrentar o problema.

O que foi feito então?

Assim que assumi a secretaria tratei imediatamente de elaborar o PROJETO DE INTERVENÇÃO SOBRE O CONTROLE DA DENGUE EM VÁRZEA ALEGRE. Um grande projeto, um grande desafio. A dengue estava espalhada por todos os municípios da região Centro Sul e do Cariri. Não podíamos trabalhar de improviso. Um rigoroso cronograma tinha que ser cumprido, previamente elaborado. Foi o que fizemos. Esse projeto foi minuciosamente debatido no conselho municipal de saúde.

O projeto apresentava desde o diagnóstico detalhado, passando pelas estratégias, até a captação de recursos. Não posso deixar de reconhecer, e ainda me lembro bem, o apoio irrestrito do prefeito à época, bem como o envolvimento do pessoal que eu escolhi para o desenvolvimento do trabalho.

Depois de uma grande articulação com as demais secretarias municipais, caímos em campo. Um verdadeiro exército de pessoas trabalhando e fazendo, de dia e de noite. Lá não tinha aquele negócio de frases prontas não, tipo: “vamos acabar com o mosquito” etc; o que fizemos foi travar uma guerra efetiva.

O trabalho da secretaria foi premiado pelo Ministério da Saúde. Como foi esse prêmio?

Nós isolamos o município. Éramos um exército de mais de 100 pessoas nas ruas, todos previamente muito bem treinadas. Não ficou uma catemba de coco ou um saquinho de dindim com água que nós não eliminássemos. Sem falar na visita domiciliar eliminando 100 por cento dos depósitos.

O resultado repercutiu e, para minha surpresa, fomos visitados pelo pessoal da TV Globo. Logo depois recebemos equipe do Ministério as Saúde, a qual constatou  a incidência zero em casos de dengue.

O município recebeu um automóvel do ministério como prêmio.

Infelizmente, por questões partidárias, o automóvel chegou no último dia da nossa gestão. Logo no primeiro dia da gestão seguinte, todos os adesivos que indicavam a premiação foram arrancados.

Sabemos que a prevenção da dengue depende também das pessoas, que devem fazer suas obrigações. Mas e a prefeitura, ela tem responsabilidade?

Lógico que sim. Todo trabalho de articulação deve partir do poder público. Várzea Alegre hoje possui cerca de 15 mil imóveis e todos precisam ser visitados regularmente. Isso requer extrema dedicação da prefeitura. Ou se empenha pra valer ou vai morrer mais gente, que pode ser qualquer um de nós. Sinceramente, o que vejo hoje da prefeitura é um trabalho CAPENGA.

O que deveria ser feito hoje como medida emergencial, mas que não vem sendo feito?

Esse mesmo trabalho que eu desenvolvi. Não há segredo. Precisa ter vontade política de resolver, de trabalhar. Sinceramente não conheço trabalho deste secretário que está aí que tenha como alvo o combate à dengue. Não conheço nenhum projeto feito pela secretaria. Não conheço a especialidade do secretário. Caso ele não tenha, também não conheço alguém na gestão incumbido desse importante trabalho. Lamentável!

Qual a real situação da dengue em Várzea Alegre hoje?

Eu digo pra você com profunda tristeza: a dengue virou epidemia em Várzea Alegre. E quando atinge esses níveis, o combate fica dificílimo. Hoje, além dos focos, há a dengue hemorrágica, a chikumgunya, a zica que inclusive têm a capacidade de matar. Isso é gravíssimo.

A Secretaria divulgou que há apenas 14 casos confirmados, além de algo em torno de 130 suspeitos. O senhor concorda com esses números?

O que não podemos esconder é que não há transparência em relação a esses números. Posso te garantir que somente pelas pessoas que conheço, o número confirmado de apenas 14 casos não me convence. Principalmente pra mim, que sei e posso, tecnicamente, identificar quando os casos atingem grandes proporções, o que é o caso aquiA secretaria presta um enorme desserviço à população se estiver escondendo o problema.

Que sugestão o senhor daria em relação a essa omissão dos casos pela prefeitura?

Eu apenas posso afirmar que os casos são alarmantes. Sobre a questão da investigação e cobrança por esclarecimentos e maior transparência, esse assunto deve ficar afeto à Câmara Municipal e ao Ministério Público. Eu apenas peço ao prefeito e ao secretário, bem como  à rede de médicos para não omitirem os casos. Isso seria mesquinho, grave e muito perigoso.